Conheça o Segredo

o segredo do sucesso das empresas israelenses

Em Israel, a inovação é resultado da chutzpá: a ousadia para desafiar a opinião do outro, questionar verdades e discutir sobre algo que não necessariamente é colocado em discussão

Falar o que pensa o tempo todo é um comportamento comum nas empresas de Israel

Vou com frequência a Israel e, numa dessas viagens, estava levando um grupo de executivos de uma das maiores empresas brasileiras. Na primeira reunião com um empreendedor de uma startup israelense, logo após fazermos uma introdução sobre os desafios que buscávamos endereçar na viagem, ouvimos uma aula de um garoto de 27 anos. Sem a menor cerimônia, ele falou por 30 minutos, expondo as razões prováveis do problema da empresa brasileira e a forma de solucioná-lo. Não queria saber se estava falando com o CEO da empresa ou com um analista, não se importou com quantos anos os executivos tinham de experiência profissional ou com qualquer outra informação sobre suas trajetórias de vida. Falou como se estivesse explicando para o seu filho por que 2 + 2 são 4.

Felizmente isso não surpreendeu o grupo. Eles já estavam preparados para isso. Antes dessas viagens, eu costumo adiantar um pouco sobre o que eles vão encontrar, dando ênfase a uma característica da cultura judaica: chutzpá. Chutzpá não tem uma tradução exata para o português, mas o termo que mais se aproxima seria ousadia. Ousadiapara desafiar a opinião do outro, para questionar verdades, para discutir sobre algo que não necessariamente é colocado em discussão. Outras palavras comumente usadas na tradução, e que ajudam no entendimento, são audácia, insolência, afronta e presunção.

A chutzpá está presente no Velho Testamento, quando Moisés discute com Deus para salvar o seu povo ou quando Abraão questiona Deus sobre seus planos de destruir Sodoma e Gomorra. Dizem os religiosos que esta é uma das primeiras regras de comportamento da lei do povo judeu. De fato, é uma atitude muito presente na cultura judaica. É como uma sensação de que não há limite para você dizer o que pensa, não importando o seu interlocutor e o contexto.

Este comportamento está presente no dia a dia da cultura judaica. Nos restaurantes, nas lojas, nas escolas, no exército, nos shoppings, nas sinagogas e nas empresas. Vemos gente discutindo o tempo todo, como se estivessem reclamando que algo não é feito do jeito que gostariam que fosse. Tudo é motivo para se criar uma discórdia.

Quando vamos então para o mundo empresarial, esta atitude tem um impacto profundo. Pois a todo momento decisões e processos são colocados à prova. Nada consegue o status de permanente. A sobrevivência de produtos, sistemas e estruturas depende da sua capacidade em resistir às críticas e se provar, a todo momento, a melhor solução. Não importa se algo é feito daquela forma há anos ou décadas. Não importa se aquele processo garantiu o sucesso de um projeto. Tudo pode ser colocado à prova a todo momento. Essa dinâmica tende a tornar as organizações verdadeiramente inovadoras, pois ela se consolida no hábito de as pessoas se desafiarem, antes que sejam desafiadas por outros. E como a hierarquia e a estrutura organizacional não são barreiras, os questionamentos podem vir de todos os lados.

Num processo de inovação, ideias precisam ser criticadas como forma de validação. As pesquisas têm demonstrado que esta etapa, quando segue um fluxo desestruturado, tende a gerar melhores resultados. Isso porque, em ambientes informais e sem o compromisso de reuniões previamente agendadas, os feedbacks tendem a ser mais espontâneos e reais. No limite, poderíamos dizer que os novos espaços de trabalho — abertos, coloridos e informais — tentam estimular a espontaneidade presente na chutzpá.

Claro que não significa que isto será suficiente para aguçar a capacidade crítica das pessoas, mesmo porque, em países como o Brasil, somos muito mais conciliadores do que litigiosos. Dificilmente dizemos claramente algo negativo, com receio de ofender pessoas ou fechar portas no futuro. Algo que é impensável para um israelense. Certa vez, por exemplo, um executivo de uma empresa me pediu para agendar uma reunião com um empreendedor. Este respondeu que não tinha interesse. Nós insistimos e ele continuou negando. Resolvemos dar mais informações sobre a empresa, que era líder em seu mercado no Brasil, e sobre o executivo que solicitava a reunião. Veio a resposta final: como insistíamos muito, ele poderia fazer a reunião, mas ela custaria US$ dez mil!

Quem vai a Israel sem entender esse traço da cultura local, pode encará-lo como arrogância. É verdade que a chutzpá está no limiar da ousadia com a arrogância. Mas aí os números deste minúsculo país, de tantas startups bem sucedidas — Waze, ICQ, Mobileye —, de grandes invenções — pen drive, drones, pílulas com câmeras, microirrigação de solos, dessalinização da água, depilador elétrico, aquecimento solar, metralhadora Uzi —, de 12 prêmios Nobel, IPOs na Nasdaq e inúmeras patentes registradas não deixam dúvida de que lado está a contribuição para a capacidade de inovação. Afinal de contas, inovação é um tema de pessoas, e não de tecnologia. Por isso, a vantagem competitiva das empresas inovadoras está na sua cultura.

Fonte:

https://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Empresa/noticia/2019/05/conheca-o-segredo-do-sucesso-das-empresas-israelenses.html

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